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Laura, anteriormente conhecida como Fritz, anteriormente conhecida como Laura - Laura


Eu tenho 36 anos. Eu sou mulher e heterossexual. Desde de meus 16 anos, eu me identificava como homem gay. Eu não respeitava os limites e o direito à autodeterminação sexual das outras pessoas. Eu manipulei os membros à me deixarem entrar em uma organização exclusiva para homens gays, por exemplo.

Eventualmente eu me cansei de viver uma mentira. Quando parei com minha transição, eu estava isolada e não sabia como me ajudar. Eu tinha passado a maior parte de uma década forçando amigos e familiares à “apoiar minha transição” e cortando pessoas da minha vida se elas se recusassem a seguir minhas regras.

Eu não sabia como lidar com o sofrimento e a culpa. Eu sofri por ter machucado meu corpo, então usei drogas. Eventualmente eu parei e aprendi a meditar. Foi um alívio enorme parar de lutar contra eu mesma e a realidade.

Durante a última década, eu fui sortuda o suficiente para me permitir buscar uma variedade de interesses sem ficar constantemente preocupada com meu corpo e sobre o que as outras pessoas pensam de mim todo dia.

Eu agora sou mãe do meu filho de 10 meses e sou muito grata por não ter perdido minha fertilidade,apesar de ter sido difícil não poder amamenta-lo. Eu tenho problemas de saúde crônicos que estão provavelmente relacionados com minha transição, e me preocupo com os efeitos potenciais, e completamente não estudados, que o fato de eu ter tomado testosterona e passando pela menopausa pode ter na saúde do meu filho.  

Eu não me vejo como uma vítima e quero ser responsabilizada pelos meus erros. Parte disse significa falar abertamente contra essa ideologia prejudicial que eu ajudei a popularizar e a ganhar mais aceitação, o que agora esta resultando em um número crescente de crianças sendo esterilizadas, perdendo a capacidade que algum dia ter filhos próprios.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu sempre me senti desconectada do meu corpo, desde de que era pequena. Me assumi lésbica aos 13, e estava bem feliz, mas meu corpo sempre pareceu errado e sujo pra mim.

Aos 15, pensando ter disforia de gênero, me assumi trans. Eu estava mais infeliz como homem trans do que antes e entrei em uma relação extremamente tóxica e abusiva mais tarde naquele ano.

Fiz tratamento com hormônios por 11 meses e, depois de escapar daquela relação, percebi que eu pensava que era trans porque tive sintomas severos de psicose onde nada parece estar certo e por causa do impacto de ter sido vítima de tráfico sexual quando criança.

Eu agora estou trabalhando para me curar e estou vivendo feliz com uma lésbica feminina

Traduzido por Aline R. Fraga



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Quando eu tinha 13, comecei a fazer dieta e jejum intermitente. Muitos dos meus problemas estavam centrados nos meus seios e eu ouvi dizer que odiar seus seios te fazia trans, então fiz um pouco de pesquisa e decidi que era um homem trans.

Enquanto meu distúrbio alimentar piorava progressivamente, comecei a me mutilar, então meus pais me colocaram na terapia. Eu disse pros meus pais, amigos e terapeuta que era trans porque eu achei que essa era a razão de eu me odiar. Meus amigos e terapeuta concordaram. A minha mãe, não.

Os médicos viram que meu peso não era saudável mas eles pensaram que seria mais crucial pra mim fazer a transição. Aos 15 anos, tive uma reunião com o terapeuta de gênero e ele disse que quando fizesse 16, eu poderia começar o tratamento com hormônios.

Minha mãe perguntou a especialista porque o fato de eu não estar comendo o suficiente não era uma preocupação. Ela disse que muitas crianças trans passam por isso antes de fazerem a transição. Minha mãe me perguntou se eu sabia quais eram alguns dos efeitos colaterais dos hormônios, então eu pesquisei sobre. Terapia com hormônios faz você ganhar peso. Isso me aterrorizou.

Minha mãe me disse que ela não iria me dar hormônios e me senti aliviada. Isso tudo me fez entrar em uma espiral e lentamente a coisa toda desmoronou.

Eu ainda sofria de anorexia, mas parar a transição me permitiu realmente lidar com isso. Eu sou grata por não ter começado o tratamento com hormônios, mas ainda sinto as consequências da minha transição social ainda hoje.

Ser trans fez com que pessoas garantissem e permitissem que meu transtorno alimentar ferisse minha saúde mental e meu corpo sob o disfarce de apoio moral e isso me aflige de vez em quando. Mas estou bem feliz e tenho comigo pessoas que me amam, então eu acho que vou ficar bem.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu cresci em uma cidade bem rural e conservadora e desde quando aprendi a falar, eu me referia a mim mesma com pronomes masculinos. Eu nunca vi uma mulher masculina na minha infância.

Eu achava que minha preferência por cabelo curto, peitos menores e roupas de homem me desqualificavam de ser uma mulher. Me identifiquei como homem dos 5 até mais ou menos 18 anos.

Eu nunca tomei testosterona já que minha mãe, vendo meu anseio por liberdade e minha masculinidade natural, falou comigo muitas vezes sobre Feminismo e como “ser mulher” era abrangente o suficiente para me acolher.

Na época, não lhe dei muito ouvidos – eu era feminista, sim, mas eu certamente não poderia ser uma MULHER. Eu era masculina de todas as maneiras.

Tenho quase 21 anos agora e foram dois anos tentando me aceitar como a lésbica masculina que sou. A minha irmã incrível tem sido uma parte vital na minha jornada.

Minhas relações com as mulheres da minha vida tem me dado vitalidade. É o mais em paz que já me senti.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu sentia que era muito feia e socialmente desajeitada para ser uma mulher. Eu pensava que eu ser uma mulher era uma coisa nojenta e eu tinha muita vergonha disso. Fazer a transição era uma maneira de escapar dessa vergonha. Eu era mais atraente como um homem e me sentia menos enojada por sentir atração por mulheres. Ser um homem fazia sentido pra mim de algum modo; eu tinha interesses de homem, eu era masculina e me atraía por mulheres.

Eu só percebi depois de um tempo que essa transição não era a solução. Eu ainda sentia vergonha da minha atração por mulheres, mas agora de um jeito diferente. Parecia predatório. Eu comecei a me sentir como uma ameaça. Eu já tinha me sentido como uma lésbica predatória antes, mas a minha masculinidade tornou isso pior. O abuso não parou. Agora eu não era mais masculina demais, e sim feminina demais.

Eu gostaria de poder dizer que reverter a transição me fez sentir melhor, mas não fez. Eu sinto vergonha de ter feito isso em primeiro lugar e que eu completamente destruí o meu próprio corpo. Eu parecia muito masculina para ser mulher antes, mas eu ainda parecia uma mulher. Agora, eu não pareço mais como eu mulher de jeito nenhum e nem tenho a voz de uma. Eu me sinto muito mais feia e sem valor. Eu arruinei todas a relações que tive porque eu realmente pensei que a transição me faria mais feliz, que me concertaria, e que todo mundo que ficasse no caminho disso também estaria ficando no caminho da minha felicidade, e então eu teria que corta-los da minha vida.

A pior parte é que eu fiz isso comigo mesma. Eu não posso culpar mais ninguém. E é realmente difícil de viver com isso.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Depois de terminar o ensino médio (5 anos atrás), eu estava mentalmente exausta e sem direção. As coisas começaram a se desenrolar e, mais ou menos naquela idade, eu também admiti à mim mesma que era exclusivamente atraída por mulheres (ainda tenho muita dificuldade com isso). Eu acabei com amizades próximas e parei com os esportes (que era minha obsessão). Eu estava deprimida e comendo muito, e para uma pessoa que tinha vivido abaixo do peso e com um corpo assexuado até os 18 anos, ganhar peso era essencialmente como passar pela puberdade pela primeira vez. Eu nunca tive que lidar com seios e excesso de carne antes. Eu tive uma experiência parecida com a que foi descrita neste artigo:

“Eu ganhei peso, mas me perdi,” escreve Nancy Tucker sobre sua própria recuperação. “Como posso explicar que dentro de mim eu sentia que ainda tinha anorexia, mas estava presa em uma fantasia de mulher gorda?” Como alguém pode ser visto como ser humano enquanto se parece com uma mulher? Pessoas com anorexia devem sofrer com esse dilema….

Como alguém pode ser visto como um ser humano enquanto se parece com uma mulher?

Mesmo que eu só consiga identificar esse sentimento retrospectivamente, esse era o meu maior dilema por um tempo. Eu me botava pra baixo. Sentia tanto nojo do meu corpo de mulher que assumia que os outros sentiriam também. Eu não esperava ou sentia que merecia ser tratada como um ser humano, e presumia que os outros também não viam valor em mim. Eu já considerei que talvez a vergonha que tenho da minha sexualidade esteja relacionada à vergonha que tenho do meu corpo. Talvez de um jeito bidirecional. Especificamente: como eu posso me sentir confortável sentindo atração pelo corpo de outras mulheres, quando não gosto de como o meu próprio corpo se parece e os significados implícitos atribuídos à isso (e vice-e-versa)? Eu ainda sinto tudo isso, mas felizmente com menos intensidade.

Eu ainda estou aprendendo a gostar do meu corpo. Isso nunca vai acabar! Mas estou melhorando.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Olá, meu nome é Sky e eu reverti minha transição (detransitioner). Quando eu tinha 14-17 eu fiz um transição mais relacionada à minha aparência física. Cortei meu cabelo curto, usava roupas masculinas e falava com uma voz mais grave do que a que tinha.

Eu estava na oitava série quando decidi fazer a transição de mulher para homem. Perdi muitos amigos quando me assumi trans. Foi muito difícil pra mim e eu comecei a comprimir meus seios (binding).

Me assumi trans pra minha mãe e irmão e minha mãe disse não para intervenções médicas. Minha mãe e meu irmão me falavam que eu era uma mulher e eu me recusei a acreditar naquela época. Eu acreditava que era trans, mas aos 17 cheguei à conclusão de que não era. Achei que esse seria o jeito de “me concertar”. Estava muito deprimida naquele tempo. Eu passei 3 anos como alguém que eu não era.

Eu agradeço minha mãe agora por não ter me deixado procurar intervenção médica. Eu estaria arrependida se ela não tivesse feito isso.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu sou uma menina de 19 anos que reverteu sua transição e moro nas Ilhas Canárias, Espanha. Eu cresci em uma casa muito tolerante, e lembro que ia em paradas do orgulho gay desde de que tinha 5 anos. Sempre falei abertamente sobre minha disforia desde de os 13, e aos 14 eu me assumi genderfluid (gênero fluido) para minha irmã gêmea e minha namorada.

Um ano depois me assumi trans e comecei a tomar testosterona  aos 15; fiz uma mastectomia aos 18. Durante todo o processo, tive dúvidas se estava fazendo a escolha certa. Quando estava com 19 anos eu percebi que não era o que eu queria/precisava e parei com a testosterona. Estou a 11 meses sem o hormônio e a quase dois anos de pós-operatório.

Essa é a versão curta da minha história, direto ao ponto, mas eu tive que combater muita dúvida interna e eu gostaria de ajudar outras pessoas com suas identidades se eu puder.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Quando tinha 11 anos, eu achei um vídeo no YouTube chamado “Como comprimir seus seios (binding) com segurança”. Eu nunca tinha ouvido falar disso antes. Procurando sobre o significado, encontrei a comunidade trans.

Mais ou menos na mesma época, um professor novo que usava pronomes neutros e se identificava como não-binário, chegou na minha escola. Parecia o momento perfeito, então decidi mudar meus pronomes também porque quando eu olhava pra dentro de mim mesma, eu “não me sentia como uma menina”. Contei pra minha mãe e ela disse que ninguém se sente assim. Eu não lhe dei ouvidos e comecei a fazer binding também. Logo em seguida, eu mudei pra outra escola onde conheci várias pessoas trans da minha idade que me encorajaram a fazer a transição. Comecei então, a usar pronomes masculinos. Minha disforia aumentou muito. Me tornei obcecada com as partes do meu corpo que eu não gostava e queria me parecer um homem o quanto possível.

Isso era basicamente tudo que eu conseguia pensar sobre. No meio disso tudo tentava gostar de meninos porque eu não queria ser lésbica; estava preocupada que isso invalidaria a minha masculinidade.

Não sei exatamente o que aconteceu, mas eu lentamente parei de pensar tanto sobre isso. Meus pais ajudaram bastante. Finalmente cheguei em um ponto onde só penso sobre isso tudo algumas vezes por dia e não me identifico mais como algo que eu nunca serei. Eu tinha que querer não ser transexual antes de conseguir desistir. O meu maior arrependimento é ter comprimido meus seios tanto durante esses três anos. Eu sinto dores agudas em meios seios e costelas frequentemente e tenho complicações na minha postura. Isso me lembra o que eu fiz comigo mesma. Sinto muito pelo meu corpo e o que fiz com ele.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Amar a mulher dentro de mim, foi a melhor forma que amor próprio que pude me dar - Britt


Eu vou fazer 30 anos no mês que vem. Tenho esperado esse aniversário por um longo tempo, ainda mais agora que estou vivendo a minha mais autêntica e verdadeira vida.

Eu passei a última década tentando me convencer de que eu era um homem. Eu tinha 19 anos quando decidi que iria fazer essa transição.

Eu tive DUAS sessões de terapia antes de começar tratamento com hormônios, o que, naquela época, não foi um problema pra mim. Eu estava pronta pra apressar todo o processo da transição porque tudo que importava era eu finalmente me parecer com um homem. Esse foi o maior desserviço que fiz a mim mesma. Não creio que eu realmente tive “transtorno de identidade de gênero”, mas eu não me sentia confortável na minha própria pele como mulher antes da transição. A sociedade me disse que eu deveria ser “xis” para ser considerada mulher e eu nunca me encaixei nesses estereótipos.

Fazer a transição parecia ser o certo e ninguém poderia me convencer do contrário. Eu mudei meu nome legal e gênero 10 meses depois de começar a tomar testosterona e fiz uma mastectomia 2 meses depois disso.

Então pelos próximos 10 anos, sofri com depressão, ansiedade e a verdadeira disforia de gênero, algo que nunca tinha realmente entendido até que eu tentei ser o homem que eu não era.

Até que, 9 meses atrás, eu parei de tomar hormônios de vez e comecei o processo de reversão da minha transição. E deixa eu te dizer, foi a melhor decisão que já tomei.

Eu sentia falta da mulher que nunca pude ser, mas aí percebi que ela esteve lá, olhando de volta pra mim no espelho, esse tempo todo. O meu nome é Brit, e eu sou ela.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Quando eu tinha 14 anos eu comecei a sair com o meu primeiro namorado de verdade. Rapidamente ele começou a desrespeitar os meus limites, colocando as mãos em mim e falando coisas que me deixavam constrangida. Isso acabou levando à situações de puro assédio. Eu já era mais masculina do que a maioria das meninas da minha idade e isso, além do fato de ter sido assediada, fez com que eu pensasse que eu não nasci para ser uma menina. Eu desenvolvi ódio e medo do meu próprio corpo. Eu tinha me desassociado dele de alguma maneira. Comecei a comprimir meus seios com tecido (binding) e me vestir e agir como homem. Alguns meses depois de terminar o relacionamento, eu compreendi que tudo que eu tinha feito estava errado.

Comprimir meu seios, cortar meu cabelo, me assumir, etc.. Não era o certo. Aí veio a vergonha e o medo.

Gradualmente comecei a fazer a transição para voltar ao sexo que nasci (detransition) e me senti horrível com tudo aquilo. Eu ainda não tinha dito pra ninguém que fui abusada. Demorou alguns anos para eu aceitar o que tinha acontecido comigo e eu ainda estou aprendendo a me amar e aceitar o meu corpo mesmo depois de todo o dano que causei a ele. Eu tenho 19 anos agora e mal consigo me ajustar.

Se você vai fazer a transição por causa de trauma sexual, por favor pare por um momento e fale com alguém. Sempre tem uma pessoa que vai te ouvir e te ajudar. Seja cauteloso e se cuide.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu cresci em uma cidade ao sul da Alemanha. A minha infância foi ótima até que eu entrei em uma escola preconceituosa com pessoas que não se encaixavam em estereótipos de gênero - e mais tarde homofóbica - quando era adolescente. Eu desenvolvi anorexia, fiquei depressiva e suicida. Minha mãe tinha hipotireoidismo. Ela era depressiva e abusava emocionalmente de mim. Aos 16 anos eu me mudei. Depois de passar por duas escolas diferentes, eu abandonei os estudos e vivi nas ruas da Europa por um ano. Foi lá que conheci um menino trans e pensei que aquelas ideias seriam o que resolveria todos os meus problemas. Eu comecei o aprendizado e a planejar a minha transição. Tomei testosterona por 3 anos, fiz uma mastectomia e mudei o meu nome. Tirei meu diploma e comecei a estudar em outra cidade.

Por causa da mastectomia, eu tenho dor constante e me arrependo de ter feito isso. Sinto que a conversa que tive com meu médico sobre os riscos das cirurgia não foram informativas o suficiente.

Depois de me mudar, eu percebi que as minhas emoções foram suprimidas por causa da testosterona. Compreendi que não estava feliz então eu parei o tratamento e tentei confrontar a minha lesbofobia interna. Agora estou tentando mudar o meu nome de volta para o que era antes.

Eu comecei um pequeno canal no YouTube para falar sobre a minha experiência e sobre o que me fez acreditar que eu era trans. Eu acho que é importante que mais pessoas que não se encaixam em estereótipos de gênero falem sobre suas experiências no dia-a-dia e que isso não significa que elas são trans. Eu aprendi muito durante a transição e espero que agora eu venha a ter um grupo melhor de pessoas para me ajudar e me dar suporte com outros obstáculos que eu posso encontrar pelo caminho.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Minha transição não era sustentável e tudo bem não ser - KJ


Eu passei muito tempo pensando sobre o que eu queria com a transição. Eu queria me sentir confortável em um corpo que nunca tive como meu. Eu queria me sentir confiante e feliz.

Depois da minha mastectomia (remoção dos seios), eu me senti melhor mas percebi que os meus objetivos era atingíveis sem eu ter que começar a tomar hormônios.

A transição era cansativa. Eu não queria que me vissem como um homem trans. Eu não queria falar para pessoas que acabei de conhecer, quais eram os meus pronomes. Eu não queria me preocupar que algum dia eu teria que fazer uma histerectomia (remoção do útero).

Nem toda a validação que recebi ou o alívio que senti sem disforia, podiam me distrair desses pensamentos que tanto me causavam ansiedade. Eu me perguntava porque eu nunca tinha considerado outras opções.

Eu nunca tinha considerado outras opções porque elas nunca foram oferecidas a mim. Me disseram que eu tinha que mudar meu corpo para “ser eu mesma” e eu acreditei.

Hoje em dia eu não aceito o meu desconforto como inato. Eu o questiono e tento entende-lo.

Eu não me arrependo da transição, mas ela simplesmente não era sustentável. Mesmo assim, foi um passo para chegar onde estou hoje e eu me recuso a me sentir envergonhada por isso.

Traduzido por Aline R. Fraga



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A identidade trans me ofereceu uma explicação do porque eu me sentia errada - Carol


A identidade Trans foi a explicação do porque eu me sentia errada. A minha vida toda, eu senti que era diferente. Nunca me senti como uma menina porque eu não parecia conseguir agir como as outras meninas agiam.

Quando eu tinha 6 anos, eu chorava e gritava porque eu não queria usar vestidos. Quando tinha 9, eu implorei que minha mãe me desse uma bola de futebol. Ela disse, “Não. Futebol é para meninos”. Na escola, as outras crianças riam de mim porque eu agia como menino. Me disseram que o jeito que eu era, era errado e que eu devia me comportar como uma menina. Mesmo assim, eu não conseguia agir dessa maneira que, para todas as outras meninas ao meu redor, parecia ser tão natural.

As minhas experiências na juventude tiveram grande impacto em como eu me via e na minha autoestima, e eu comecei a não gostar do meu corpo. Eu odiava ser mulher. Ao contrário de muitas outras mulheres detrans, eu vivi anos como uma mulher lésbica butch (“masculina”) antes de fazer a transição para homem trans aos 34 anos. Muitas coisas aconteceram depois que eu fiz 30 anos que mudaram minha vida e me levaram a uma profunda e sombria depressão. Parecia que eu estava afundando e minha disforia de gênero se tornou insuportável. A única solução que eu via, era fazer essa transição.

Eu não vou chegar aqui e dizer que a transição não ajudou a atenuar a minha disforia, porque ajudou, mas os motivos disso ter acontecido ficaram óbvios depois de 4 anos com testosterona e uma mastectomia dupla. Ajudou, porque eu não tinha mais que viver em um mundo em que eu achava que eu era errada.

Comecei a tomar antidepressivos e eles permitiram que eu me perguntasse sobre questões difíceis mas necessárias para lidar com a minha disforia sem ter que viver como um homem trans. Têm sido a coisa mais difícil e humilhante que eu tive que fazer em toda a minha vida, mas eu sou grata todos os dias por ter feito isso. Pela primeira vez, eu verdadeiramente estou vivendo autenticamente. Eu sou mãe, esposa, lésbica e eu tenho certeza que algumas pessoas ainda acham que eu não me comporto como uma mulher. Eu sei que não sou errada, mas elas estão.  

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu tenho 30 anos. No total, eu passei mais ou menos 6 anos tomando testosterona e, por um pequeno período de tempo, estava feliz com os resultados. Isso não durou. T me deixava bem peluda (peluda tipo o Pé Grande) e com muitas espinhas. Eu odiava como a parte de baixo do meu corpo aumentou (ainda odeio) e também o quão... fria me fazia sentir.

Eu fiz uma histerectomia (remoção do útero) em 2018 porque eu tinha causado atrofia vaginal severa e no útero ,e sentia muita dor. Eu perdi tanto sangue depois da cirurgia que eu quase morri. Foi traumático.

Logo depois disso, parei com a testosterona. Eu estava depressiva e aterrorizada. Arrependimento e medo tomaram conta de mim e não conseguia aceitar que porra eu tinha feito e o que tinha acontecido.

Nenhum médico me ouviu quando eu disse que queria começar terapia hormonal feminina para repor o que eu havia eliminado. Eu fiquei de Janeiro de 2018 até Novembro daquele ano sem quaisquer hormônios específicos, sintéticos ou não.

No meio disso tudo, eu fiz uma mastectomia. Eu realmente achei que iria ajudar. Não ajudou. Eu senti dor onde as cicatrizes então. Gosto da minha aparência, mas eu fico pensando que se eu tivesse tentado e ido a terapia, talvez eu gostasse dos meus seios como eram.

De qualquer maneira, eu encontrei a comunidade detrans (pessoas que fizeram transição para voltar ao sexo que nasceram) no início de 2019. Eles me ajudaram a saber a coisa certa a dizer aos médicos para eles me ouvirem. Me recomendaram uma endocrinologista que já tinha trabalhado com pessoas detrans antes. Ela me receitou e eu comecei a tomar Estrogênio novamente em Novembro de 2019.

Levou mais de um ano de reflexão e terapia para eu começar a digerir o que tinha acontecido nesses anos e perceber o porquê de eu querer fazer essa transição em primeiro lugar.

Eu nunca mais vou ser aquela mulher jovial que eu era. Não mesmo. Eu pareço um homem. Eu sou alta, tenho muito pelo em todo lugar e falo com uma voz mais grave. Eu estou ficando careca. Mas pela primeira vez na minha vida toda, estou sendo ensinada e aprendendo a amar a mim mesma pelo que sou.

Eu cometi erros, claro, mas sou uma orgulhosa detrans, muito butch (“masculina”), mulher lésbica, e nunca me senti tão feliz em fazer parte de uma comunidade como essa, mesmo que as vezes discordemos.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu vivi sob abuso e isolada quando criança. Eu não tinha muitos amigos. Fui para a faculdade e encontrei a minha tribo quando comecei uma organização para mulheres negras, mas não demorou muito para pessoas trans brancas virem e nos intimidarem até que nós os deixássemos participar do grupo. Essa foi a primeira vez que eu tive contato com a natureza autoritária da comunidade. Na época eu até me senti honrada e me afiliei à um grupo para me informar sobre gênero e sexualidade no campus da faculdade. Ainda lá, me descobri como uma pessoa não-binária e transmasculina.

Eu lembro de tomar banho com a minha mãe e ter que ouvir ela criticar o meu corpo naquele espaço fechado e vulnerável. Eu fui criada em escolas em que  pessoas brancas eram maioria e tive o que eu chamo  de disforia racial. Ao invés de me aprofundar em qualquer parte desse trauma, eu senti que seria melhor optar por me remover do meu gênero porque eu não poderia optar por fazer o mesmo com qualquer outra categoria social. As pessoas que me deram apoio quando eu era nova eram trans. Eu me lembro de pessoas trans  que eu conhecia dizendo as coisas mais desprezíveis possível sobre pessoas negras como, “se mulheres negras, que tem toda aquela masculinidade e testosterona, são consideradas mulheres, porque nós não.”

Eu precisava tanto de amizades e me odiava tanto, que eu não falava nada. O apoio que eu tinha dessa comunidade começou a sucumbir quando eu comecei a explorar minha neurodiversidade. Não existe espaço suficiente para falar sobre como esse movimento seleciona mulheres com autismo e com socializações duras em ralação à seus corpos, como mulheres negras por exemplo, e faz elas sentirem como se tivessem que se modificar para encontrar paz. Eu fico feliz que tenha deixado aquele espaço tóxico, mas me arrependo de todos os anos que desperdicei me odiando simplesmente por ser uma mulher negra e bissexual com autismo e disforia.

Traduzido por Aline R. Fraga



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A transição não resolveu nenhum dos meus problemas - Talia


Eu fui para uma escola só para mulheres onde eu estava sempre rodeada de meninas, por 3 anos. Era aquele momento de nossas vidas em que todas ao meu redor se preocupavam demais com suas aparência, roupas e como os meninos as viam. Eu nunca liguei para essas coisas e rapidamente me senti “desconectada” das outras. Eu nunca me “senti” como outras garotas. Lésbicas causavam medo, então eu nunca ousei deixar esse pensamento passar pela minha cabeça. Eu desprezava o jeito como os meninos olhavam pra mim depois da puberdade então cobria o meu corpo o máximo possível e desenvolvi um distúrbio alimentar.

Eu não me via nas outras meninas, então eu sentia como se o meu corpo fosse errado. Comecei a sofrer com depressão e ansiedade e logo em seguida descobri a comunidade trans na internet que encorajou o desconforto que eu sentia e me levou a acreditar que começar a transição para o sexo oposto seria a cura para todos os meus problemas. Então eu sai do armário como homem trans.

Eu vivi como homem por quase 3 anos e fui encaminhada para um clínica especializada em tratamento de gênero para adultos para começar tratamento com hormônios, até que um dia eu passei por um ataque de depressão e percebi que fazer essa transição não tinha resolvido nenhum dos meus problemas.

Comecei terapia pela primeira vez na minha vida e percebi que eu sou uma lésbica butch e autista. Eu compreendi que eu não tinha que, ou precisava necessariamente “me sentir” como as outras meninas e que estava tudo bem em ser eu mesma, sem deixar de ser uma mulher.

Depois de anos sentindo ódio de mim mesma e negando quem eu era, eu estou finalmente começando me conhecer sendo uma mulher masculina e autista. E eu me amo como sou.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Eu sou uma mulher bissexual de 30 anos e costumava me considerar genderfluid (gênero fluido) – que é um neogender dentro do grupo trans – por mais ou menos 8 anos. Eu não sei se outras pessoas me consideravam transexual  ou não naquela época, já que eu nunca tomei testosterona, fiz cirurgia ou tentei “parecer” um homem, mas por dentro eu tinha dificuldade de me aceitar com uma mulher.

Eu sempre (tanto quanto eu consigo me lembrar), senti atração por mulheres mais do que por homens. Para mim, mulheres pareciam-se deusas intocáveis que abalavam meu coração e alma com sua beleza, sensualidade e graça. Eu era feliz tendo um corpo feminino tão bonito quanto o meu – mas de alguma maneira, eu não sentia que era permitido me atrair por outras mulheres. Provavelmente porque naquele tempo, os únicos exemplos de relações lésbicas que eu vi, eram pornográficas. Eu acabei internalizando a ideia de que lésbicas e bissexuais  somente existiam para o fetiche masculino...

Levou anos para eu perceber que essa era a raiz do problema e o motivo de eu me identificar como genderfluid: eu não achava que eu tinha permissão de amar e desejar uma mulher e me dava mais conforto pensar que eu era parcialmente homem.

Em momentos em que eu sentia atração por uma menina, eu me achava “macho” e me vestia butch. As “vibrações” masculinas vieram acompanhadas de pensamentos depressivos e de auto-mutilação, o que eu interpretei como disforia de gênero. Não foi surpresa nenhuma que eu imediatamente me identifiquei com o termo genderfluid no momento que li sobre isso.

Depois de anos de dificuldades pessoais, eu finalmente percebi que sou bissexual. Foi uma das melhores coisas que aconteceu comigo. Eu logo falei para a minha família e amigos próximos e recebi muito amor e apoio. Sair do armário significou me aceitar como eu sou.

Desde aquele dia, eu finalmente me sinto completa como mulher e pessoa. Eu me sinto em paz. Eu não me sinto mais masculina, e sim realizada por ser quem sou. Eu sou uma mulher, sou bissexual, e não seria nada diferente disso. Ser eu mesma é a melhor benção.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Uma aceitação radical têm me dado paz de espírito - Keira


Aos 14 anos eu comecei a me sentir desconectada do meu corpo e como se tivesse algo errado com a minha forte inconformidade de gênero.

Começar a minha transição parecia ser a solução depois de tanto tempo com depressão e ansiedade enquanto as outras meninas ao meu redor pareciam tão felizes e satisfeitas. Eu pensei que fazer essa transição me permitiria lidar melhor com o mundo e meu corpo. Eu não teria mais que lidar com o traumático processo do meu corpo e com as impraticabilidades que passamos por ser mulher e isso me daria forças e controle sobre a minha vida. Eu não teria tantas expectativas sobre mim (que eu não queria realizar), me sentiria mais atraente fisicamente e não me sentiria tão desajeitada e desconfortável fazendo sexo lésbico.

Aos 16 anos, me deram remédios para atrasar a puberdade. Aos 17, testosterona. Remoção de seios aos 20.

Um ano depois da cirurgia foi como se finalmente a minha visão tivesse clareado. Os hormônios e a cirurgia jamais poderiam me transformar em um homem. Eu percebi que eu sempre teria que falar para as pessoas que eu fiz essa transição porque apesar de eu parecer um, eu não era como os meus amigos homens. Eu SEMPRE seria uma mulher. Uma mulher agora alterada (e eu era lembrada disso toda vez que eu me via sem roupa). Eu ainda me sentia alienada, depressiva e ansiosa.

Parei de tomar injeções e comecei a fazer análise. Eu não nasci errada. Eu não tinha me libertado. Eu ainda estava subconscientemente presa na noção de conformidade de gênero e meu corpo agora esta cansado, quebrado e desorientado. Me faltava alguém para me espelhar e uma comunidade para me dar suporte como uma menina que não se encaixava em estereótipos de gênero. Eu precisava de mais educação  sobre o meu corpo. Me faltavam amor e aceitação.

Traduzido por Aline R. Fraga



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Mesmo sendo muito difícil pra mim, eu vou falar sobre as razões por trás da minha transição. Eu acho que a razão principal de eu querer me modificar dessa maneira foi o abuso sexual que eu sofri quando criança, na primeira série.

Apesar disso, tenho que acrescentar que comecei a rejeitar algumas “normas” femininas no jardim de infância: eu me recusava a usar vestidos e brincar com bonecas – preferia brincar de carrinho -, mas meu trauma acelerou todo o processo e se não fosse por ele, talvez eu pudesse ter aceitado ser uma menina.

Depois do trauma, o meu cérebro optou por táticas de rejeição e literalmente começou a odiar a si mesmo, ou mais especificamente, meu corpo, condenado e reminiscente ao trauma. Eu não conseguia me olhar no espelho e literalmente não ligava para o estado do meu corpo.

Eu queria esquecer tudo, incluindo a pessoa e o corpo que teve qualquer coisa a ver com o que tinha acontecido. Eu queria começar de novo. “Aquilo aconteceu com M., e eu sou uma pessoa diferente agora”.

Quando eu tinha 14 anos, eu descobri pessoas trans e em um primeiro momento, pensei que isso fosse o que eu sou: “Então é assim que se chama, é isso que esta acontecendo comigo”, eu pensei

Comecei a me preparar para a transição, lendo literalmente tudo que existia sobre o assunto, usando pronomes e um nome masculino quando me referia a mim mesma. O tempo inteiro, eu só conseguia pensar na minha transição e pensar em mim como sendo uma menina era nojento. Eu até quis me matar porque eu não era um cara.

A minha disforia praticamente não existe mais agora. Eu encontrei um jeito de lutar contra isso com terapia. Eu entendo agora que passar por um transição não iria resolver os meus problemas causados por disforia de gênero. Só iria, provavelmente, tornar as coisas piores .

Por um lado, o Feminismo ajudou a enfraquecer a minha disforia porque esclareceu pra mim o porquê de algumas mulheres não quererem usar maquiagem, se depilar, adorar crianças ou querer engravidar, e ainda assim não deixarem de ser mulher.

Feminismo me ajudou a compreender o fato de que ser uma mulher é primeiramente relacionado a cromossomos e biologia, não a regras sociais e estereótipos.

Por outro lado, fez eu me sentir um pouco pior do que antes pelo fato de que nós somos frequentemente confrontadas com tipos diferentes de violência, e isso me remete à dolorosas experiências e memórias, e me faz sentir mau.

Traduzido por Aline R. Fraga



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